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TDAH

TDAH em mulheres adultas: por que o diagnóstico chega tarde

4 de setembro de 202613 min de leitura

Muitas mulheres chegam à avaliação com a mesma frase: sempre deram conta, só que às custas de um esforço que ninguém via. O TDAH em mulheres adultas costuma ser reconhecido tarde, depois de anos de cansaço, autocobrança e explicações que nunca encaixaram direito. Este texto reúne o que a pesquisa mostra sobre por que esse atraso acontece, por que a apresentação desatenta passa despercebida e o que uma avaliação bem conduzida esclarece. O objetivo é ajudar você a decidir se procurar avaliação faz sentido no seu caso. Nenhuma parte dele fecha diagnóstico.

Por que o TDAH em mulheres adultas costuma ser identificado tarde?

Porque o encaminhamento depende do que incomoda o ambiente. Meninas com TDAH tendem ao predomínio da desatenção, que chama menos atenção de pais e escola (Hinshaw et al., 2022). Nos registros nacionais de saúde do País de Gales, os homens receberam o diagnóstico em média aos 10,9 anos, e as mulheres, aos 12,6 (Martin et al., 2024).

Esse estudo acompanhou 16.458 pessoas de 3 a 30 anos com diagnóstico de TDAH registrado entre 2000 e 2019. Só 20,3% eram do sexo feminino, uma razão de 3,9 homens para cada mulher. Antes de receberem o diagnóstico de TDAH, as mulheres já tinham acumulado mais diagnósticos de ansiedade e depressão e mais prescrições de antidepressivo do que os homens. Os autores chamam isso de ofuscamento diagnóstico: o quadro emocional aparece primeiro e ocupa o lugar da explicação.

A diferença entre os sexos encolhe com a idade, e o mesmo estudo mostra isso dentro da própria amostra. Entre quem foi diagnosticado antes dos 12 anos, a razão sobe para 4,8 homens por mulher. Entre quem só recebeu o diagnóstico depois dos 18, ela cai para 1,9 (Martin et al., 2024). Quanto mais tarde o diagnóstico chega, mais equilibrada fica a proporção. A conclusão dos autores é que as mulheres passam por reconhecimento e tratamento tardios, com ofuscamento por outras condições de saúde mental ou diagnóstico inicial equivocado.

A revisão anual do *Journal of Child Psychology and Psychiatry* sobre TDAH em meninas e mulheres chega ao mesmo lugar. Elas preenchem critérios diagnósticos a pouco menos da metade da taxa dos meninos. Na vida adulta, essa proporção fica muito mais próxima da igualdade (Hinshaw et al., 2022).

A apresentação desatenta não é uma versão leve do TDAH

A revisão de Hinshaw e colaboradores descreve o predomínio da desatenção em meninas e mulheres, com manifestações menos evidentes que, ainda assim, prejudicam (Hinshaw et al., 2022). Menos evidente aqui quer dizer menos visível para quem observa de fora, e não menos pesado para quem vive.

A percepção de quem observa também pesa. Num estudo com 283 crianças de 7 a 12 anos com sintomas altos de TDAH, meninas e meninos que preenchiam critérios diagnósticos se distinguiam dos demais por mais problemas no total, mas a magnitude do efeito foi maior nas meninas. Nos problemas emocionais, a diferença separou as meninas diagnosticadas das meninas com sintomas altos sem diagnóstico e não separou os meninos, ainda que a interação entre sexo e diagnóstico tenha ficado no limite da significância (OR 1,40; p = 0,058). No mesmo estudo, os pais subestimaram os sintomas de hiperatividade e impulsividade das meninas em comparação com a entrevista clínica estruturada, e superestimaram os dos meninos (Mowlem et al., 2019).

Há um contraponto importante, e ele evita o exagero de tratar o TDAH feminino como outro transtorno. No estudo holandês com 2.257 adultos, homens e mulheres endossaram sintomas de forma muito parecida (Platania et al., 2025). O que difere com mais força é a chance de alguém notar. Platania e colaboradores lembram que, nos ensaios de campo que serviram para estabelecer os critérios de TDAH, publicados por Lahey e colaboradores em 1994 para o DSM-IV, apenas 21% dos participantes eram meninas.

Quais sinais de TDAH em mulheres adultas aparecem com mais frequência nos estudos?

Os estudos apontam quatro achados recorrentes. Predomínio de desatenção sobre hiperatividade visível. Problemas internalizantes, como ansiedade e depressão. Uso frequente de estratégias compensatórias que escondem o prejuízo. Histórico de tratamento para ansiedade ou depressão antes do reconhecimento do TDAH (Hinshaw et al., 2022; Martin et al., 2024).

Cada um desses achados descreve um grupo, não uma pessoa. Ansiedade, cansaço, privação de sono, sobrecarga e depressão produzem desatenção sem que exista TDAH, e é exatamente por isso que a investigação diferencial existe. Nenhum item da lista acima, sozinho ou somado aos outros, indica TDAH em ninguém: o que indica é a avaliação, feita por profissional habilitado, com história de vida e prejuízo funcional documentados.

Como o TDAH costuma aparecer na infância e na vida adulta em mulheres

AspectoNa infância e na adolescênciaNa vida adulta
Apresentação mais frequentePredomínio de desatenção, com pouca hiperatividade visível (Hinshaw et al., 2022)Predomínio de desatenção, acompanhado de problemas internalizantes, isto é, ansiedade e depressão (Hinshaw et al., 2022)
Como o quadro costuma ser descritoMeninas que "se mostram sonhadoras e tímidas" e que "se esforçam para não chamar a atenção sobre si mesmas" (ABDA, 2024)Mulheres cujas manifestações são menos evidentes, embora prejudiquem, e que adotam com frequência estratégias compensatórias (Hinshaw et al., 2022)
Como o ambiente reageSintomas de hiperatividade e impulsividade subestimados pelos pais em relação à entrevista clínica (Mowlem et al., 2019)Queixa reconhecida primeiro como ansiedade ou depressão (Martin et al., 2024)
O que costuma vir antes do diagnósticoEncaminhamento associado à presença de outros problemas, sobretudo emocionais (Mowlem et al., 2019)Diagnóstico de ansiedade ou depressão e prescrição de antidepressivo antes do reconhecimento do TDAH (Martin et al., 2024)
Razão entre homens e mulheres diagnosticados4,8 homens para cada mulher entre os diagnosticados antes dos 12 anos (Martin et al., 2024)1,9 homem para cada mulher entre os diagnosticados depois dos 18 anos (Martin et al., 2024)
Idade média do primeiro diagnóstico registrado10,9 anos entre os homens (Martin et al., 2024)12,6 anos entre as mulheres, considerando toda a coorte de 3 a 30 anos (Martin et al., 2024)

A tabela descreve padrões observados em estudos de grupo, todos europeus, mais a descrição da ABDA. Ela não se aplica a toda mulher com TDAH e não serve para autodiagnóstico.

Mascaramento e o custo de descobrir tarde

A revisão de Hinshaw e colaboradores registra duas razões combinadas para profissionais deixarem passar sintomas e prejuízos em meninas e mulheres. As manifestações são menos evidentes, embora prejudiquem. Elas também adotam com frequência estratégias compensatórias (Hinshaw et al., 2022). Essas estratégias funcionam bem enquanto a estrutura externa segura: horário de escola, prova marcada, casa dos pais. Costumam ceder quando a vida adulta exige que a estrutura venha de dentro, com trabalho, contas, filhos e casa ao mesmo tempo.

A mesma revisão aponta que mulheres com TDAH sofrem, em média, prejuízos sérios, com risco aumentado de dificuldades em relacionamentos próximos e de autolesão (Hinshaw et al., 2022). Se você está em sofrimento intenso agora, o CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188.

Ciclo hormonal e sintomas: o que a evidência sustenta hoje?

A evidência é preliminar. Uma revisão sistemática de 2025 reuniu 11 estudos e encontrou relação entre hormônios sexuais e sintomas de TDAH em mulheres. Os próprios autores classificam essa base como extremamente limitada, com amostras pequenas e métodos diferentes entre si (Osianlis et al., 2025). Relatos de piora na fase lútea existem e merecem investigação, não certeza.

O que há de mais concreto vem de amostras clínicas, não populacionais. Num estudo com 209 mulheres com TDAH atendidas em serviço especializado, sintomas depressivos pré-menstruais apareceram em cerca de 45%, contra cerca de 28% na população geral. Sintomas de depressão pós-parto apareceram em cerca de 58%, contra cerca de 19% (Dorani et al., 2021, retomados por Kooij et al., 2025). São números altos e clinicamente relevantes, colhidos em mulheres que já procuraram tratamento, o que tende a selecionar os casos mais graves. A distinção importa: sintoma depressivo pré-menstrual não é a mesma coisa que transtorno disfórico pré-menstrual, quadro bem mais restrito. Levar a pauta hormonal para a consulta faz sentido. Tratar a relação como estabelecida, ainda não.

O que a avaliação neuropsicológica acrescenta ao diagnóstico clínico?

O diagnóstico de TDAH é clínico. Nenhuma escala, teste neuropsicológico ou exame de imagem fecha o quadro sozinho, como registra o Consenso Internacional da World Federation of ADHD na seção sobre diagnóstico (Faraone et al., 2021). A avaliação neuropsicológica acrescenta medida objetiva do funcionamento cognitivo, hipóteses diferenciais para outras causas de desatenção e um laudo que orienta o passo seguinte.

Na prática, o processo combina entrevista detalhada, história de desenvolvimento (com informante, quando possível), escalas, testes psicológicos com parecer favorável no SATEPSI, conforme a Resolução CFP nº 31/2022, e devolutiva. O documento final segue a Resolução CFP nº 06/2019, que separa laudo de relatório e define o que cada um precisa conter. Se a dúvida é sobre o percurso, a página da avaliação de TDAH em adultos descreve as etapas, e a da avaliação neuropsicológica de adultos mostra o que muda quando há mais de uma hipótese em jogo.

Por que a lista de sintomas da internet não resolve

Conteúdo sobre TDAH circula muito, e nem sempre com precisão. Dois psicólogos clínicos analisaram os 100 vídeos mais populares com a hashtag #ADHD no TikTok. Das alegações sobre sintomas, 48,7% correspondiam a um sintoma do DSM-5. Apenas 4,1% dos vídeos reconheciam que aquilo pode não valer para todo mundo com o transtorno (Karasavva et al., 2025). Reconhecer-se em uma descrição é um bom motivo para procurar avaliação, e é um péssimo critério para concluir qualquer coisa sozinha.

Perguntas frequentes

Dá para ter TDAH sem nunca ter sido hiperativa?

Sim. A revisão de Hinshaw e colaboradores descreve predomínio de desatenção em meninas e mulheres, com manifestações menos evidentes para quem observa de fora, e presença de problemas internalizantes como ansiedade e depressão (Hinshaw et al., 2022). Ausência de agitação motora na infância, portanto, não afasta a hipótese, e essa é uma das razões pelas quais o reconhecimento demora.

Fui boa aluna. Isso descarta TDAH?

Não descarta. A mesma revisão registra que meninas e mulheres com TDAH adotam com frequência estratégias compensatórias, e o custo dessas estratégias não aparece no boletim (Hinshaw et al., 2022). A avaliação investiga o padrão ao longo da vida e o prejuízo funcional, não a nota isolada de um período escolar.

Preciso de laudo para começar tratamento?

O laudo não é pré-requisito para cuidar do sofrimento atual. Ele é o documento previsto na Resolução CFP nº 06/2019 e costuma ser necessário quando há pedido formal de terceiro, encaminhamento médico ou solicitação de adaptação no trabalho e no estudo. Também ajuda quando o quadro tem mais de uma hipótese em disputa.

Já faço terapia. A avaliação ainda faz sentido?

Pode fazer, principalmente quando os avanços da psicoterapia para adultos esbarram sempre no mesmo ponto de organização e de memória. A avaliação e a psicoterapia respondem a perguntas diferentes: uma investiga o que explica o quadro, a outra trabalha o que fazer com ele no dia a dia. As duas costumam se complementar.

Próximo passo

Se você se reconheceu em parte do que leu, o passo seguinte é conversar com alguém que possa investigar com método. Uma avaliação bem feita serve para dar clareza sobre o que está acontecendo e sobre o que fazer com isso, e não para colar um rótulo. É assim que o TDAH em mulheres adultas costuma sair do campo da suspeita difusa e virar uma decisão possível. Para tirar dúvidas ou verificar disponibilidade, agende uma conversa inicial. Para um texto mais geral sobre o assunto, veja os sinais de TDAH em adultos.

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**Autoria:** Beatryz Costa, psicóloga e neuropsicóloga, CRP-04/86617. Atende presencialmente em Lagoa Santa/MG, recebendo também pessoas de Belo Horizonte e região metropolitana, e online para todo o Brasil.

**Publicado em:** 4 de setembro de 2026.

**Aviso:** este conteúdo é informativo e não substitui consulta, avaliação ou diagnóstico profissional. Em caso de sofrimento intenso, o CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188.

Fontes

  • Martin J, Langley K, Cooper M, Rouquette OY, John A, Sayal K, Ford T, Thapar A. "Sex differences in attention-deficit hyperactivity disorder diagnosis and clinical care: a national study of population healthcare records in Wales". *Journal of Child Psychology and Psychiatry*, 2024, v. 65, n. 12, p. 1648-1658. DOI: 10.1111/jcpp.13987. Disponível em: https://acamh.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jcpp.13987
  • Hinshaw SP, Nguyen PT, O'Grady SM, Rosenthal EA. "Annual Research Review: Attention-deficit/hyperactivity disorder in girls and women: underrepresentation, longitudinal processes, and key directions". *Journal of Child Psychology and Psychiatry*, 2022, v. 63, n. 4, p. 484-496. Publicado on-line em 6 de julho de 2021. DOI: 10.1111/jcpp.13480.
  • Mowlem F, Agnew-Blais J, Taylor E, Asherson P. "Do different factors influence whether girls versus boys meet ADHD diagnostic criteria? Sex differences among children with high ADHD symptoms". *Psychiatry Research*, fevereiro de 2019, v. 272, p. 765-773. DOI: 10.1016/j.psychres.2018.12.128. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6401208/
  • Platania NM, Starreveld DEJ, Wynchank D, Beekman ATF, Kooij JJS. "Bias by gender: exploring gender-based differences in the endorsement of ADHD symptoms and impairment among adult patients". *Frontiers in Global Women's Health*, 20 de março de 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/global-womens-health/articles/10.3389/fgwh.2025.1549028/full
  • Faraone SV et al. "The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 Evidence-based conclusions about the disorder". *Neuroscience and Biobehavioral Reviews*, 2021, v. 128, p. 789-818. Seção sobre diagnóstico. Disponível em: https://www.adhdevidence.org/evidence
  • Osianlis E, Thomas EHX, Jenkins LM, Gurvich C. "ADHD and Sex Hormones in Females: A Systematic Review". *Journal of Attention Disorders*, 2025. DOI: 10.1177/10870547251332319. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12145478/
  • Dorani F, Bijlenga D, Beekman ATF, van Someren EJW, Kooij JJS. "Prevalence of hormone-related mood disorder symptoms in women with ADHD". *Journal of Psychiatric Research*, 2021, v. 133, p. 10-15. Percentuais comparativos conforme Kooij JJS et al., "Research advances and future directions in female ADHD", *Frontiers in Global Women's Health*, 7 de julho de 2025. DOI: 10.3389/fgwh.2025.1613628.
  • Karasavva V, Miller C, Groves N, Montiel A, Canu W, Mikami A. "A double-edged hashtag: Evaluation of #ADHD-related TikTok content and its associations with perceptions of ADHD". *PLOS ONE*, 19 de março de 2025. DOI: 10.1371/journal.pone.0319335. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0319335
  • Lahey BB, Applegate B, McBurnett K, Biederman J, Greenhill L, Hynd GW et al. "DSM-IV field trials for attention deficit hyperactivity disorder in children and adolescents". *American Journal of Psychiatry*, 1994, v. 151, p. 1673-1685. Citado por Platania et al. (2025) como origem do dado de 21% de meninas nos ensaios de campo.
  • Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). "TDAH em meninas e mulheres", por Katia Beatriz Correia e Silva, 16 de dezembro de 2024. Disponível em: https://tdah.org.br/tdah-em-mulheres/
  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 31, de 15 de dezembro de 2022 (avaliação psicológica e SATEPSI) e Resolução CFP nº 06/2019 (elaboração de documentos escritos). Disponível em: https://satepsi.cfp.org.br/legislacao.cfm
  • Centro de Valorização da Vida (CVV). Atendimento gratuito, 24 horas, pelo 188. Disponível em: https://cvv.org.br/

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